5 de jul. de 2007

Livros...



Gabinete de Leitura



Uma tarde no Real Gabinete Português de Leitura: a imponente biblioteca, maior acervo de obras lusas fora de Portugal, ajuda a pensar sobre os valores que cada civilização estabelece para si mesma


A biblioteca no centro do Rio de Janeiro. Seus 350 mil livros ostentam e reiteram o elo indispensável entre riquezas materiais e espirituais.
* por Francisco Bosco
Na rua Luís de Camões, ao lado da praça Tiradentes, tendo à sua diagonal os fundos do Teatro João Caetano e à sua frente o sobrado que hoje abriga o Centro Cultural Carioca, assoma a fachada do Real Gabinete Português de Leitura. Sim, assoma, pois embora se encontre no mesmo nível, plano, das demais construções a seu redor, o edifício, por meio da imponência de seu estilo neomanuelino uma espécie de gótico tardio portuguêscom leve influência mourisca , parece situar-se num ponto mais alto do que aquele em que efetivamente se acha. Franqueada a fachada, a sensação se agrava: o interior é ascensional, as linhas verticais imaginárias culminando numa bela abóbada por onde a luz entra e refl ete nas inscrições douradas dos cerca de 350 mil livros que emolduram a parte interna do prédio. Estamos diante de outra civilização, outra compreensão da aventura humana - cujo sentido podemos decifrar pelos detalhes.

Logo na fachada do edifício vêem-se as estátuas do infante dom Henrique, de Pedro Álvares Cabral, de Vasco da Gama e de Camões. No interior, no lado oposto à porta de entrada, portanto de frente para os olhos dos que ingressam, encontra-se, atrás de um púlpito de madeira nobre, um busto em bronze do criador de Os Lusíadas. O estilo arquitetônico, como já se disse, remonta ao período da regência de dom Manuel, o Venturoso, sob cujo governo (1495-1521) Portugal lançou-se à aventura expansionista. Os livros, por sua vez, são quase que em sua totalidade de capas duras e escuras, tendo na lombada o título e o autor inscritos em dourado. O ambiente é profundamente silencioso. O dourado encontra-se também em ornamentos no interior, de cujo centro pende um belíssimo lustre, que revela ainda melhor os elaborados motivos em pedra e madeira das paredes e prateleiras.

É assim que se afirma e ostenta um vínculo entre civilização e conhecimento, riqueza material e riqueza espiritual. O infante d. Henrique, patrono da Escola de Sagres, ao lado de Camões: as duas pontas do arco, a tecnologia que propicia os grandes feitos e a língua que os celebra e eterniza. A imagem do conhecimento como solidez e elevação: os livros têm lombadas largas, capas duras, inscrições em dourado e ao mesmo tempo parecem ascender ao céu. (É completamente outra, note-se, a imagem contemporânea do conhecimento. Basta ver uma biblioteca atual: as lombadas são mais estreitas e coloridas, a capa raramente é dura, tudo apresenta um aspecto mais dinâmico, alegre e efêmero.) Os materiais nobres, duradouros, atestam o valor material do saber. Os ornamentos, pacientemente elaborados, celebram uma lógica irredutível ao meramente pragmático. Daí o sentido profundo da coleção de moedas que abriga ainda o Real Gabinete: elas não contrastam, "comércio e usura", com o conhecimento desinteressado dos livros, mas antes reiteram o vínculo material-espiritual que todo o conjunto proclama.

Fundado em 1837, para aprimorar a cultura dos portugueses que se achavam em solo brasileiro, o Real Gabinete tornou-se, 170 anos depois, uma biblioteca pública das mais importantes do Brasil, contendo obras raras, manuscritos, documentos e virtualmente toda a produção intelectual de Portugal desde 1935, quando o governo luso determinou que a Biblioteca Nacional de Lisboa recebesse de todos os editores daquele país um exemplar das obras por eles impressas e os destinasse ao Real Gabinete. Mas, além do conhecimento ofertado por suas centenas de milhares de livros, o esplêndido edifício convida a uma refl exão sobre as civilizações e seus valores, sobre a grandeza e aquilo de que ela é feita, firmando-se, assim, em pleno centro de um Rio de Janeiro assediado pela pobreza, como o testemunho vivo do que se pode chamar de uma cultura humanista.
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